Com o objetivo de formar pesquisadores e professores com um sólido perfil teórico e crítico em literatura, ampliando as perspectivas além do tradicional, há quatro décadas teve início o Mestrado em Literatura Latino-Americana e Chilena, do Departamento de Linguística e Literatura da Faculdade de Humanidades em colaboração com o Instituto de Estudos Avançados (IDEA-Usach).
Com o tempo, o programa passaria a se atualizar constantemente, abordando temas-chave como a literatura pré-hispânica e colonial, até chegar aos séculos XIX, XX e XXI, incorporando questões de gênero, sexualidades, memória, testemunhos e discursos indígenas.
Para a Dra. Cristina Moyano Barahona, decana da Faculdade de Humanidades, comemorar esses 40 anos é muito mais do que marcar um número no calendário institucional: "É reconhecer uma história intelectual que contribuiu de forma decisiva para configurar o campo dos estudos literários no Chile e que soube articular, a partir de uma universidade pública, uma reflexão crítica, sofisticada e comprometida sobre nossa literatura e cultura."
A diretora do Mestrado em Literatura Latino-Americana e Chilena, Dra. Jessica Puyol Durán, afirmou estar feliz com essa conquista, ao completar quatro décadas de existência como programa de pós-graduação. "O que celebramos hoje são as pessoas que construíram este mestrado e aquelas que o constroem hoje em dia; aquelas que o criaram e as que o sustentam dia após dia: seu corpo docente, seus estudantes e sua equipe administrativa (...) é um esforço profundamente coletivo o nosso e, para mim, é uma honra fazer parte dele", afirmou.
A convidada de honra da comemoração foi a poeta Elvira Hernández, vencedora do Prêmio Nacional de Literatura 2024, que encantou o público com um recital de seus melhores textos e, antes disso, dedicou algumas palavras ao programa por seus 40 anos. "Estamos caminhando para o transumanismo, o pós-humanismo. Parece que as humanidades vão ficando para trás, que já não são necessárias. Mas este espaço, este Mestrado em Literatura Latino-Americana e Chilena, demonstra que são importantíssimas, na medida em que permitem enfrentar novas realidades virtuais apresentadas como verdades absolutas", enfatizou.
Mesa-redonda histórica
A atividade contou com uma roda de conversa com professoras e professores históricos do programa, na qual narraram momentos importantes ao longo dessas quatro décadas de funcionamento.
O Dr. Naín Nómez recordou sua primeira chegada a nossa universidade em 1971, quando ingressou no Departamento de Filosofia da Faculdade de Estudos Gerais. Após o golpe de Estado, partiu para o exílio em 1974 e só voltou à Usach em 1990. "O mestrado nasce em 1985 e tem início no Departamento de Línguas, e levamos anos para mudar seu nome. O mestrado era uma espécie de cúpula sem base, pois não havia programas de graduação na área, mas era imperativo contar com as humanidades na universidade, sobretudo por se tratar de uma ditadura", afirmou.
A Dra. Raquel Olea contou como chegou à universidade por meio de um anúncio do professor Nómez, informando que o mestrado procurava uma professora que trabalhasse com questões de gênero, tema que ela já tinha desenvolvido em ONGs durante a segunda parte da ditadura. "A Usach tem sido um grande espaço de trabalho, com estudantes maravilhosos, críticos e com pensamento político. Isso era importantíssimo naquela época, pois permitia produzir pensamento pós-ditadura. Mas não só isso: também se manteve ao longo do tempo e cresceu com sua própria história. As humanidades na Universidade de Santiago do Chile têm sido um bastião de resistência diante das transformações dos novos tempos e sociedades", destacou.
A Dra. Andrea Jeftanovic lembrou que ela e o professor Jorge Rueda fazem parte da geração de transição do mestrado, uma vez que acompanharam a aposentadoria de professoras e professores históricos, como Raquel Olea e Luis Hachim, entre outros. "Coube a nós escolher a nova vanguarda, que hoje é representada por Sebastián Reyes, Jessica Puyol e Macarena Urzúa, que estão aqui por seus próprios méritos e talentos. Esse mestrado se caracteriza pela liberdade de cátedra e por não ter uma biblioteca onde existam livros ou temas proibidos (...) Os Meios da Usach são comprometidos com os professores; com eles pude gravar programas de rádio e televisão e aparecer nas páginas digitais de seus jornais. Mas, além disso, a alma do mestrado são nossos estudantes, que demonstram sua vocação quando chegam às 18h30, depois de terem dado aulas durante todo o dia, com o objetivo de transformar a educação pública do país", destacou a professora.
O Dr. Jorge Rueda contou ao público sua história no programa, tendo começado como estudante do Dr. Naín Nómez, razão pela qual jamais imaginou fazer parte dos professores do programa. Um de seus interesses é que os novos conhecimentos na área cheguem, no futuro, à cidadania. "Atualmente, fala-se que, para alcançar uma alta densidade de capital humano, são necessários dez pesquisadores para cada mil habitantes. O Chile conta com um para cada mil. Já Portugal, onze para cada mil. Esse é o desafio que temos como país e como instituição pública de ensino para os próximos 40 anos: gerar mais conhecimento, mais pesquisadores, mais divulgação e avançar na valorização das humanidades, do mundo da linguagem, das ciências sociais e da literatura", concluiu.
